1. Enquadramento Teórico da Gentrificação Turística
O enquadramento concetual da gentrificação turística articula a transformação funcional do edificado residencial com a pressão exercida pelos fluxos de visitantes nos centros urbanos. A literatura contemporânea diverge quanto aos prismas analíticos privilegiados para examinar este fenómeno. Por um lado, abordagens de cariz espacial concentram-se na distribuição geográfica e nos limiares de saturação do alojamento de curta duração, sustentando que a densidade territorial destas unidades dita o nível de pressão sobre o parque habitacional permanente (crossref-10-20867-thm-27-3-6, 2021). Por outro lado, perspetivas comparativas focadas no fenómeno do sobreturismo situam a proliferação das plataformas digitais de arrendamento temporário no quadro mais amplo das externalidades transnacionais sobre cidades históricas, como Lisboa e Florença, destacando assimetrias na capacidade regulatória local (crossref-10-4018-979-8-3693-6050-7-ch007, 2024). Em complemento, investigações centradas na dimensão sociocultural enfatizam a rutura do tecido comunitário tradicional e o consequente deslocamento dos residentes face à conversão turística acelerada (crossref-10-4018-978-1-7998-2224-0-ch008, 2020). Enquanto a análise espacial prioriza a quantificação dos padrões locativos e dos limiares de capacidade de carga, as abordagens sociocríticas e comparativas interpretam a gentrificação turística como uma reconfiguração estrutural das relações de pertença e acesso à habitação. Esta diversidade teórico-metodológica evidencia que a compreensão da gentrificação turística exige uma síntese integradora entre a modelação espacial dos fluxos e a avaliação dos impactos socioeconómicos quotidianos vivenciados pelas populações residentes.